Quem tem que mudar sou eu
Se você fosse realizar hoje um check-up, não da sua saúde física, mas da sua conversão espiritual, em que grau se encontraria? Diante dessa autoverificação, você diria que avançou, estagnou ou retrocedeu?
Na Primeira Leitura, por meio do profeta Jeremias, vemos a insistência de Deus para que o povo dê um passo de fé. O apóstolo Paulo nos recorda que Deus não muda Sua essência: mesmo quando somos infiéis, Ele permanece fiel. A essência de Deus é amar, perdoar e manifestar a Sua misericórdia.
Se Deus não muda em Sua essência amorosa, quem precisa mudar somos nós. É preciso bater no peito e assumir a responsabilidade pessoal: “Quem tem que mudar sou eu!” É um exercício diário, pois a tendência humana é apontar o dedo para o cônjuge, para os filhos ou para o próximo, justificando que o outro é quem precisa de transformação. Quanto mais próximo de Deus um santo se encontra, mais ele reconhece sua pequenez e necessidade de conversão.
A lição de Santa Teresinha e a fé da Mulher Cananeia
Santa Teresinha do Menino Jesus, mesmo sem cometer pecados graves, sentia-se a mais necessitada da misericórdia divina em seu convento. Ela não buscava a mudança das irmãs, mas a sua própria santificação. Nos relacionamentos humanos e no matrimônio, a tentativa de mudar o outro gera desgaste; a verdadeira sobrevivência e a paz exigem a humildade de mudar a si mesmo. Olhar com desprezo ou virar as costas não condiz com o Evangelho, pois Jesus ensina a superação do egoísmo para fazer o bem até mesmo a quem nos é difícil.
No Evangelho, encontramos o exemplo da mulher cananeia, uma pagã que recebeu um dos maiores elogios de Jesus. Enquanto os religiosos da época criticavam, ela se aproximou gritando por socorro em favor de sua filha gravemente atormentada. Inicialmente, deparou-se com o silêncio de Jesus e com a impaciência dos discípulos, que queriam afastá-la. Contudo, ela perseverou.
O silêncio aparente de Deus não significa abandono, mas um convite ao amadurecimento da fé. A humildade vence o orgulho e atrai o Coração de Deus. Ao ouvir de Jesus que não era certo tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos, ela respondeu com profunda sabedoria e pequenez: “Até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa do seu dono.” Naquele instante, Jesus contemplou a sinceridade do seu coração e declarou: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como queres.”
Recorrer somente a Deus e perseverar na oração
Para nós, católicos, fica o chamado firme de recorrer exclusivamente a Jesus Cristo em nossas aflições e necessidades. Não se deve buscar respostas ou práticas fora do ensinamento da fé. Quando a oração parece demorar a ser atendida, Deus está fortalecendo a nossa confiança e moldando nossa convicção. Não devemos buscar a Deus apenas pelo que Ele pode nos dar, mas por Quem Ele É.
Na caminhada de fé, os milagres acontecem quando não desistimos de buscar a Cristo. Como Pedro no meio da tempestade, cujo clamor foi simplesmente “Senhor, salva-me!”, a oração humilde e sincera alcança o braço estendido do Salvador.
Transformando a vida em um mini-céu
A experiência do livramento de Deus nos impele a viver de maneira regenerada. Ao retornar para casa com a filha curada, aquela mãe pôde vivenciar um ambiente totalmente renovado. É nossa decisão diária transformar os ambientes onde estamos — nossa família, nosso casamento e nossa comunidade — em um mini-céu, evitando tudo aquilo que conduz ao conflito e ao esgotamento espiritual.
Deus nos criou com liberdade para cultivarmos o nosso próprio jardim espiritual. Quando nos afastamos do propósito divino ou fazemos mau uso da nossa liberdade, experimentamos o vazio interior. Entretanto, assim como na parábola do Filho Pródigo, o Pai sempre nos acolhe de braços abertos quando decidimos voltar para o Seu convívio.
Que o Senhor nos conceda a graça de um coração humilde, insistente e perseverante como o da mulher cananeia, capaz de construir a comunhão e edificar o céu já no dia de hoje.




