A instituição do Ministério Diaconal na Igreja Primitiva
No livro dos Atos dos Apóstolos (capítulo 6), lemos o motivo da instituição dos diáconos na Santa Igreja nascente, surgida a partir de uma crise no atendimento aos mais vulneráveis:
“Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, surgiram murmurações dos helenistas contra os hebreus. Isto porque, diziam aqueles, suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Os Doze convocaram então a multidão dos discípulos e disseram: ‘Não é conveniente que abandonemos a Palavra de Deus para servir às mesas. Procurai, antes, entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos desta tarefa. Quanto a nós, permaneceremos assíduos à oração e ao ministério da Palavra’.” (Atos 6,1-4)
Surgiram, então, esses irmãos servidores (que é o que significa a palavra diácono no grego).
A evolução e a restauração do Diaconado Permanente
A diaconia, primeiro grau do sacramento da Ordem, desenvolveu-se na Igreja primitiva e ao longo dos tempos futuros.
- Idade Média: Com o tempo, o serviço dos diáconos aos pobres, doentes e às viúvas começou a ser suprido pelas ordens religiosas que foram surgindo. O diaconado entrou em decadência, servindo muitas vezes apenas como um degrau (trampolim) para o presbiterado (segundo grau da Ordem).
- Século XX: Em 1964, com o Concílio Vaticano II, foi restabelecido o diaconado permanente na forma como o conhecemos hoje: “O Diaconado permanente poderá ser restaurado como um grau próprio e permanente da hierarquia. Pode ser conferido a homens de idade mais madura, mesmo casados” (Lumen Gentium, nº 74).
O martírio de São Lourenço: As verdadeiras riquezas da Igreja
O martírio de São Lourenço (nascido em Huesca, Espanha) é célebre por ele ter sido queimado lentamente numa grelha. Sua morte ocorreu em 06 de agosto de 258, durante a perseguição sob o imperador Valeriano, quatro dias após a morte do Papa Sisto II e de outros quatro diáconos.
Lourenço foi poupado inicialmente para apresentar ao prefeito Cornelius Saecularis os livros de contas e o dinheiro da Igreja. Na data aprazada, ele levou o prefeito para ver as “riquezas” e declarou:
“Vem comigo contemplar as riquezas que te apresento. Os pórticos estão cheios de vasos de ouro; os talentos dispostos ordenadamente brilham junto às paredes. Há estojos maravilhosos; há joias de beleza admirável.”
Ele então apontou para uma multidão de coxos, cegos, crianças, pobres e doentes que a Igreja romana alimentava. A fúria do prefeito foi tamanha que o mandou ser executado pelo fogo. Lourenço, cheio de amor a Cristo, aceitou a morte sem temor, chegando a dizer ao verdugo com ironia e coragem: “Já está cozido deste lado, dá-lhe volta e come”.
A Roma cristã venera São Lourenço com imenso respeito; depois de São Pedro e São Paulo, a sua festa foi a maior da antiga liturgia romana.
Qual o legado de São Lourenço para os cristãos de hoje?
Qual o legado que São Lourenço deixa para nós, cristãos da atualidade? A responsabilidade de testemunhar a fé em Jesus Cristo com:
- Coragem e intrepidez;
- Alegria e esperança;
- Firmeza diante das tribulações.
Hoje, não enfrentamos fogueiras nem grelhas acesas, mas lidamos com o fogo das paixões desmedidas, do ócio, do consumismo e do individualismo. Enfrentamos a mornidão na oração, a tibieza na espiritualidade e o desperdício de tempo nas redes sociais.
Não devemos usar desculpas para não nos empenharmos na mudança de mentalidade da nossa sociedade, especialmente contra:
- Os crimes contra a vida (como o aborto);
- A banalização do divórcio que fere as famílias;
- A busca desenfreada pelo conforto material;
- O fechamento e a indiferença no auxílio aos mais necessitados;
- O desrespeito às coisas sagradas e à própria fé.
Não podemos ter a ilusão de que o futuro está isento de perseguições como as que levaram São Lourenço e milhares de outros mártires à morte. Afinal, o Catecismo da Igreja Católica nos alerta com clareza no número 769:
“««a Igreja avança na sua peregrinação por entre as perseguições do mundo e das consolações de Deus»”. Vivendo na terra, ela tem consciência de viver no exílio, longe do Senhor e suspira pelo advento do Reino em plenitude, pela hora em que «espera e deseja juntar-se ao seu Rei na glória». A consumação da Igreja – e através dela, do mundo – na glória, não se fará sem grandes provações. Só então é que «todos os justos, desde Adão, “desde o justo Abel até ao último eleito”, se encontrarão reunidos na Igreja universal junto do Pai»
Peçamos ao Espírito Santo que dê a cada um de nós o dom da fortaleza e da temperança, para darmos a Deus e ao mundo um testemunho maravilhoso de fé, esperança e caridade que, talvez, atraia para Cristo muitos irmãos que andam indecisos e afastados do caminho que leva à salvação, à verdade e à vida eterna. Assim seja.
Viva o mártir Diácono São Lourenço.








